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A sociedade dos que não estão

Enviado em 1 de dezembro de 2016 | No programa: Educação para Todos | Escrito por Cláudia Mota | Publicado por Juliana Chagas

Corpo de pessoa em escritório utilizando o celular

É inegável que vivemos na era da comunicação e da informação. Vivemos as 24 horas do dia conectados com o mundo,

Além de conectados estamos sempre “no modo –disponível”, ou seja, estamos sempre a disposição de responder algum comentário ou notificação, uma chamada de um amigo ou de um problema do trabalho. Criamos expressões impensáveis há dez ou vinte anos como plantão à distância, que é quando o funcionário está à disposição da empresa mesmo distante do local de trabalho .

À primeira vista podemos achar que tudo isso faz parte da evolução da civilização, entretanto há o outro lado da moeda em que estamos 100% presentes e disponíveis no mundo virtual e ausentes do nosso cotidiano. Duas pesquisas feitas recentemente mapearam o comportamento dos jovens ao celular. A pesquisa da “Radar Jovem”, feita durante 80 semanas com jovens brasileiros de 18 a 25 anos concluíram que eles passam em média seis horas por dia em redes sociais através do celular. Já a rede acadêmica, Passei Direto, fez uma pesquisa com dois mil universitários em todo o país e revelou que 75% ficam conectados até os últimos instantes antes de dormir e 62,5% se conectam assim que acordam.

Recentemente estive no pronto socorro infantil de um hospital de classe média alta e me chamou a atenção uma família, pai e mãe acompanhando a filhinha com pouco mais de um ano. Durante o período que observei a cena, cerca de 15 a 20 minutos, a mãe segurava a criança que estava em seu colo com a mão esquerda, enquanto digitava freneticamente em seu celular com a mão direita. O pai que foi acompanhava a pequena ao pronto atendimento fazia expressões de riso e falava diante do celular, ora gravando algo, ora assistindo o que parecia ser um vídeo muito engraçado. Enquanto isso a pequena tentava chamar a atenção dos dois tentando descer do colo ou pegar o celular de um dos dois; até que; sem sucesso em chamar a atenção dos pais, fixou o olhar naquela tela mágica e poderosa que roubava a atenção que ela deveria estar recebendo dos pais.

Na correria do dia a dia é fácil ver outras pessoas que não estão. Numa fila de banco, numa sala de espera, no ônibus ou metrô há sempre uma televisão ligada falando histericamente para ninguém ou para todos. No transporte público as pessoas entram e sai, sentam e se levantam sem notarem ou serem notadas umas pelas outras, não raro ouvem-se risos de pessoas que mesmo juntas interagem mais com os que estão distantes do que com os que estão ao seu lado.

Em restaurantes, famílias, namorados ou grupo de amigos, é comum estarem todos “conectados” com o mundo virtual e desconectados entre os presentes. Nós esquecemos que o humano se dá na relação, nas trocas de olhar, na escuta, no acolhimento, no tato.

Estamos criando uma geração apática ao humano, uma geração que não vivenciou a leitura facial e compreendeu a causa efeito de suas palavras, que não escolheu emoticons para expressar seus sentimentos. Quem sofre, nessa sociedade de zumbis tecnológicos são as duas extremidades da vida: as crianças que necessitam experienciar o sensorial, que precisam aprender o que é o humano e estão sendo deixadas com suas babás eletrônicas em seu pequeno mundo virtual. Crianças que precisam correr, pular, ralar o joelho, gritar e que estão sendo silenciadas aos poucos para não atrapalhar os adultos que não estão. O mais importante é sempre o trabalho, o lazer, a alimentação ou o trânsito nas grandes cidades que sempre e mais uma vez justificam a ausência física.

Os idosos são a outra ponta solta e abandonada, não se tem mais tempo para ouvir suas histórias, paciência para escutar seus conselhos. São impelidos a entrarem nesse mundo virtual como a mesma destreza de um jovem sob o risco de estar ainda mais deslocado da vida da família. Precisam entender que o tempo passou e ainda passa tão rápido que não há tempo para refeições em família (a não ser que todos possam ter acesso à internet. Já ouvi casos e presencio também sobre a nova ordem social em voga nas visitas: ao chegar, o visitante antes de cumprimentar os anfitriões pergunte:“qual a senha do wifi?”.

Na sociedade dos que não estão é fácil perceber como a presença é desimportante, como quem não está entre nós merece muito mais, nossos comentários sobre a paisagem que estamos vendo juntos, sobre a comida que estamos comendo do que nós que estamos ali fisicamente. Estamos nos esquecendo que compartilhar é um privilégio de estar com alguém.

Sem querer ser saudosista, não quero de maneira alguma negar as conquistas da tecnologia, apenas lembrar que sempre temos escolha entre: ir ou ficar,estar ou não estar, ser ou não ser; e que ingenuamente estamos nos alienando e esvaziando nosso mundo de nós mesmos. Estamos contando e compartilhando vidas que não estamos vivendo, estamos abrindo mão de nossa humanidade. E aquele grande medo de que os robôs tomem conta da sociedade está se concretizando só que os robôs somos nós mesmos.

 

Foto ilustrativa: pexels.com

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