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A Intolerância Religiosa

Enviado em 18 de abril de 2016 | No programa: O Despertar da Consciência | Escrito por Sebastião Camargo | Publicado por Juliana Chagas

Nos últimos anos, a comunidade terrena tem assistido, estarrecida, à onda de violência extrema, protagonizada por adeptos de seitas fundamentalistas, ocorrida em diversos países e continentes, contra seres humanos que assumem o que consideram crime, passível de sofrer a pena capital, ou seja, o pensar de maneira diferente, adotando religião e filosofia de vida diversas da sua.

Bíblia rasgada

 

Essa intolerância, consequência do dogmatismo religioso – a tendência do indivíduo de crer em algo que considera verdadeiro e, portanto, indiscutível e inquestionável – é de uma austeridade extrema para com os de opiniões divergentes, os que professam ideias religiosas diferentes das suas. Presente nas diversas épocas da história universal, a intolerância tem motivado estudos e pesquisas por parte de estudiosos de História, das Ciências Sociais e de outras áreas do conhecimento humano, os quais a evidenciam como a causa de morte e de sofrimento de incalculável número de seres humanos, bem como da dissolução de inúmeras comunidades pacíficas e ordeiras, detentoras de costumes e conhecimentos que poderiam ter agregado preciosos valores às sociedades, não fosse o seu extermínio de maneira brutal e abrupta. Um exemplo disso é a expulsão de árabes e judeus da península ibérica, os quais eram detentores de conhecimentos avançados em diversas áreas do saber.

Perpetrada pela intolerância da Igreja Católica (através de cujos desmandos – desde a venda de indulgências à denominada Santa Inquisição – foram exterminados mais de cem mil indivíduos (dentre eles, John Huss e seu discípulo fiel, Jerônimo de Praga…), principalmente, os que demonstravam maior lucidez intelectual, moral e espiritual, ante os critérios estabelecidos pelos que se elegiam como os donos da verdade), o banimento dessas comunidades empobreceu culturalmente, dentre outras nações, a Espanha, de maneira irreversível.

Conquanto imprescindíveis para a evolução das sociedades, nas diversas épocas da História, por serem canais da renovação do pensamento, dos costumes e hábitos sociais, bem como de freio para abusos e desordens, as religiões também se fizeram medianeiras do poder absoluto sobre incontáveis comunidades, poder que tem se excedido, devido ao cerceamento da liberdade de pensar e de se expressar. Desenvolveram-se “as castas sacerdotais com seu cortejo de hierarquias, de cerimônias e de privilégios”, cujos líderes, temerosos de perder as regalias dos altos cargos, ao instituírem a formalidade dos cultos, tudo fizeram e ainda o fazem, ditatorialmente, para inibir a liberdade de raciocínio e de manifestação dos seus seguidores.

Chegadas a um patamar de compreensão mais lúcido acerca dos seus direitos e deveres2, algumas comunidades terrenas, mais avançadas na organização social e no pensamento racional, receberam em seu seio pensadores que viriam revolucionar as concepções anteriormente adotadas acerca de religião e de filosofia de vida. O dogma caiu por terra. Não mais se aceitam “verdades” absolutas. Todo o saber é relativo, proporcional ao grau de compreensão daquele que o assimila. À medida que as sociedades evoluem, o conhecimento se amplia, as “verdades” serão outras. De modo que as “verdades” se alteram, segundo o amadurecimento intelectivo, emocional e espiritual de cada indivíduo, de acordo com a cultura, o caráter e o degrau auferido por cada corpo social, em cada época da humanidade.

No século XIX, o homem se encontrava preparado para receber e assimilar as leis universais que regem a vida no cosmos e os Espíritos se manifestaram em diversos pontos do globo. Allan Kardec, eminente filósofo, pedagogo, educador por excelência, cientista e pensador francês organiza os ensinamentos dos Espíritos, recebidos por intermédio de inúmeros médiuns ou intérpretes do mundo espiritual.

O diferencial da codificação espírita é ser essencialmente educativa, direcionando seus ensinamentos para o Espírito imortal. Alicerça-se na Ética e na Moral do Cristo, isto é, funda-se “nos vínculos da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre bases mais sólidas: as próprias leis da Natureza” (Allan Kardec – Revista Espírita de novembro de 1868).

Objetiva a construção do homem integral pelas três vertentes: a Filosofia, a Ciência e a Moral.  Segundo Léon Denis, em O Problema do Ser, do Destino e da Dor (1ª parte, cap. 2), “o Espiritismo […] não dogmatiza; não é uma seita nem uma ortodoxia. É uma filosofia viva, patente a todos os espíritos livres, e que progride por evolução. Não faz imposições de ordem alguma; propõe, e o que propõe apoia-se em fatos de experiência e provas morais; não exclui nenhuma das outras crenças, mas se eleva acima delas e abraça-as numa fórmula mais vasta, numa expressão mais elevada e extensa da verdade.”

A doutrina dos Espíritos sepulta de vez o dogmatismo religioso. Uma vez que não impõe, mas propõe, apoiando-se em fatos de experiência, exige do estudioso a reflexão, proporcionando-lhe a livre escolha, que o fará decidir por este ou aquele caminho evolutivo porque compreendeu e assim o quis. Faz-nos compreender que as teorias religiosas que o antecederam foram degraus de entendimento para se chegar ao patamar em que agora nos encontramos e, assim sendo, não as exclui, expressões parciais da verdade que foram, necessárias para se chegar à compreensão que ora alcançamos (628LE.R – “não há para o homem estudioso nenhum antigo sistema filosófico, nenhuma tradição, nenhuma religião a negligenciar, pois em tudo há os germes das grandes verdades”).

Assim sendo, a tolerância é premissa basilar da Doutrina dos Espíritos como para a evolução segura das sociedades terrenas, uma vez que nos encontramos todos em níveis distintos de evolução, cada qual apresentando universos com diferentes experiências. E, para que possamos alcançar outros patamares evolutivos, imprescindível o inter-relacionamento, a troca de experiências, que há de enriquecer o universo de cada um. Impossível alcançar maior compreensão acerca da vida e do homem sem absorver o conhecimento que a humanidade, no seu todo, já adquiriu.

Segundo Emmanuel, em Pensamento e Vida (cap. 25): “Vive a tolerância na base de todo o progresso efetivo. Tolerância, porém, não é conceito de superfície. É reflexo vivo da compreensão que nasce, límpida, na fonte da alma, plasmando a esperança, a paciência e o perdão com esquecimento de todo o mal. Tolerar é refletir o entendimento fraterno, e o perdão será sempre profilaxia segura, garantindo, onde estiver, saúde e paz, renovação e segurança.”

Allan Kardec deixa indicações semelhantes às de Emmanuel em toda a codificação. Não por acaso, estabelece a bússola que deve nortear a postura do espírita-cristão, tendo-a apregoado e exemplificado integralmente até o fim dos seus dias: trabalho, solidariedade e tolerância. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. 17, item 3, Kardec define o caráter e o comportamento do verdadeiro cristão: “O verdadeiro homem de bem é aquele que pratica a lei de justiça, de amor e de caridade, na sua maior pureza. Questiona sua consciência sobre seus próprios atos, perguntará se não violou essa lei, se não fez o mal, se fez todo o bem que podia, se negligenciou voluntariamente uma ocasião de ser útil, se ninguém tem queixa dele, enfim, se fez aos outros tudo o que gostaria que lhe fizessem.”

Eis as características do cristão autêntico. Em sentido profundo, o caráter e o comportamento do verdadeiro religioso, o antídoto, enfim, contra a intolerância religiosa, posto que, segundo André Luiz, em Ação e Reação, cap. 19, o “bem é o verdadeiro antídoto do mal”. E, para Joanna de Ângelis, em No Rumo da Felicidade, cap.23: “o amor compreende, a justiça corrige, a caridade salva. O amor consola, a justiça disciplina, a caridade erradica o mal.”

 

2 O dever é a obrigação moral, primeiro para consigo mesmo e, em seguida, para com os outros. O dever é a lei da vida: encontra-se desde os menores detalhes, assim como nos mais elevados atos.

Lázaro – O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo XVII (Sede Perfeitos), item 7 (O dever).

 

2 Para a Democracia socialista, o homem interior, o homem da consciência individual não existe; a coletividade o absorve por inteiro. Os princípios que ela adota não são mais do que uma negação de toda filosofia elevada e de toda causa superior. Não se procura outra coisa senão conquistar direitos; entretanto, o gozo dos direitos não pode ser obtido sem a prática dos deveres. O direito sem o dever, que o limita e corrige, só pode produzir novas dilacerações, novos sofrimentos.

Léon Denis – do livro, O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Introdução.

 

Foto ilustrativa: freeimages.com

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