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Mediunidade de Parceria – Ressignificando as Práticas Mediúnicas

Enviado em 21 de julho de 2014 | No programa: Mediunidade em Tempos de Transição | Escrito por Carlos Pereira | Publicado por Rádio Boa Nova

Desenho de reunião mediúnica

A Terra, sabidamente, passa por dias de transição espiritual. Há algum tempo declina-se a fase de testes e resgates espirituais e ascende, pouco a pouco, o momento onde se dará efetivamente o esforço coletivo para a predominância do amor entre os seus habitantes, encarnados e desencarnados.

Este processo faz parte de uma lei divina que disciplina a evolução do universo e o nosso planeta não tem como fugir nem postergar. Isto também quer dizer que a permanência de cada um de nós dependerá da vontade individual de se melhorar e comprometer-se com a causa do bem. É natural que espíritos inclinados para o mal queiram atrapalhar este progresso e tudo façam para retardar aquilo que, no íntimo, sabem ser inevitável. No campo da relação espiritual, vários sinais começam a se manifestar nos ambientes espíritas demandando ações diferenciadas para situações novas. 

O cenário espiritual atual apresenta um quadro preocupante onde se detecta intensa movimentação articulada das trevas contra o progresso, motivado pela ação de cientistas astrais, magos negros e dragões; avanço da tecnologia obsessional mediante o uso de aparelhos parasitas, ovóides, clonagem etc; e o aumento do atendimento de espíritos cruéis e desumanizados, entre outros aspectos. 

Paralelamente, percebe-se na casa espírita, de maneira geral, certa mentalidade engessada nas práticas mediúnicas; excesso de disciplina e escassez de sentimentos; ausência de humildade para novos aprendizados; resistência à mudança; comunicações repetitivas e prática de Espiritismo sem espíritos, entre outras situações. 

Esta postura das casas espíritas foi analisada por Yvonne do Amaral Pereira dentro de um contexto processual onde ela aponta avanços e recuos nesta relação interexistencial. A primeira fase do uso da mediunidade no Brasil foi caracterizada pelo espetáculo  onde a abundância da fenomenologia mediúnica excedia seus limites educativos, através de shows e fantasias para o grande público.

Diante das excentricidades, surgiu uma contrarreação em prol da privacidade das manifestações mediúnicas, configurado pela adoção de medidas cautelares para um exercício seguro e produtivo em razão dos abusos; realização de reuniões com maior privacidade; desvinculação com os demais grupos do centro espírita. Este isolamento das demais atividades da casa espírita promoveu, no entanto, o estímulo à vaidade.

Era a época do Espiritismo de Vivos, na terminologia cunhada por Leopoldo Machado. Este elitismo fez surgir aqueles que passaram a fazer a apologia às reuniões totalmente públicas indo de encontro ao excesso de privacidade instalado.

As reuniões mediúnicas, então, foram flexibilizadas, mas regidas por normas que eram, muitas vezes, expedidas sem muita profundidade de avaliação e com o aumento do número de proibições. O receituário, as manifestações de benfeitores nos “cultos” no lar e outras tantas expressões de liberdade com responsabilidade de medianeiros seguros são tomadas como desajustes.

É a fase da excessiva dependência dos espíritos e da preocupação deliberada contra a mistificação e o animismo. Houve o avanço do purismo doutrinário mediante a adoção de medidas disciplinares que institucionalizam o intercâmbio mediúnico. Era a ênfase no medo, do preciosismo em vez da prudência. Predominou a ascendência ao socorro dos sofredores, a divisão dos níveis de médiuns, enfim, era o Espiritismo sem Espíritos. 

Maria Modesto Cravo, analisando este status quo, assevera que “o exercício mediúnico atravessa um grave processo deflagrado há algumas décadas, que conduziu ao rompimento com a espontaneidade. A título de instituir cuidados que se fizeram necessários – fato que ninguém pode contestar – criaram-se normas e padrões muito rígidos. O exercício mediúnico precisa ser ressignificado”. Esta ressignificação está sendo denominada por um conjunto de espíritos de mediunidade de parceria. 

Diante do novo contexto espiritual, urgem conhecimentos e habilidades novos. E também novas atitudes. Não que o conhecimento apreendido até agora esteja obsoleto, nada disso, o que se impõe é atualizar-se para poder enfrentar competentemente aquilo que ainda não se sabe. Uma postura de aprendiz e, sempre na linha kardequiana, de muito bom senso e seriedade. 

Raul Hanriot analisa as etapas evolutivas da fenomenologia mediúnica espírita em três épocas: “o primeiro instante foi quando da consecução do embasamento teórico obtido com uma ostensiva fenomenologia; logo adiante, em um segundo tempo, vemos o trabalho missionário de medianeiros que atenderam ao chamado da segurança doutrinária através dos desdobramentos subsidiários. (…). Em pleno amanhecer do novo milênio está nascendo a era da mediunidade de parceria, na qual as expressões fenomênicas e missionárias serão mera consequência, e na qual o preparo e a experiência adquiridos nas fontes de evangelização de si mesmo serão o canal apropriado para os serviços específicos desta modalidade, conforme as demandas infindáveis das nossas fileiras espíritas”.

Mais. Defende ele uma imediata reciclagem de metodologias, outra estruturação dos grupos mediúnicos e uma nova condução das atividades das práticas mediúnicas para a atualidade. 

Vários espíritos somam-se a este esforço de ressignificação das práticas mediúnicas. Bezerra de Menezes afirma que “nem dependência e acomodação, nem receio e preciosismo; parceria, eis a proposta.” 

Eurípedes Barsanulfo adianta que “no século XX, os espíritos procuraram os homens. Agora, os homens deverão ser os parceiros dos espíritos.Buscar-lhes para a vivência de uma relação mais consciente e educativa. O “telefone” tilinta daqui para lá, todavia, chega o instante de recebermos também os “chamados” do homem, cujos interesses repousem na transformação de si mesmo.”

Cícero Pereira solicita que “incentivemos a cultura da parceria com os Bons espíritos na qual o preparo, o esforço e o sacrifício constituem a plataforma de serviços a que devem se engajar os medianeiros que anseiam a tarefa útil e beneficente.” Hermes é enfático ao dizer que “os médiuns do futuro serão mais parceiros da Espiritualidade e menos instrumentos”.

Klaus sustenta que a “mediunidade é parceria. O que muitos médiuns não entendem é que essa parceria não se dá apenas no momento do transe. Quando falamos em parceria, significa que o médium deve modificar profundamente a sua vida.” 

Quais, porém, seriam as bases de sustentação da mediunidade de parceria? Vejamos algumas delas: 

  • Construção conjunta do produto mediúnico. Deixa-se a postura passiva para a ação de parceria. “Os médiuns saem da posição de meros instrumentos do além para a posição de servidores conscientes e participativos da obra entre os dois mundos”. (Raul Hanriot, em Seara Bendita); 
  • Criação de grupos mediúnicos. Formação de grupos mediúnicos que é diferente de reuniões mediúnicas. “Antes de aglomerações de gente, edifiquemos laços consistentes de paz e amor. Antes de arregimentarmos mais uma tarefa de intercâmbio com os mortos, consolidemos um canal de relacionamento afetivo e libertador, um escoadouro de paz para ambas as dimensões, uma Escola de Almas!” (Ermance Dufaux, em Unidos pelo Amor); 
  • Humanização das práticas. Mais importante do que as instituições e normas são as pessoas. O foco das atividades das casas espíritas deve ser o bem-estar e a felicidade das pessoas. Na relação espiritual, o compromisso deve ser amplo, pois envolve o tratamento afetivo dos encarnados (coordenadores do grupo mediúnico, médiuns, dialogadores fraternos, equipe de vibração) e dos desencarnados. Não mais doutrinar a entidade, mas conversar amorosamente com o irmão fora do corpo físico;
  • Busca da vocação de serviço. Cada grupo mediúnico deve encontrar a sua especialização, a sua diferenciação, o seu modo próprio de desenvolvimento baseado na vocação de seus participantes; 
  • Coragem para experimentar. Não ter receio em realizar novas experiências, de modo criterioso, sistematizando as conclusões e avançando com os espíritos, com o cuidado para obter a “adesão afetiva e espontânea na participação de novas vivências”. (Eurípedes Barsanulfo, em Lírios de Esperança). É aquilo que o espírito Cícero Pereira convencionou chamar de laboratório de investigação fraterna. Não proibir antecipadamente, permitir, e depois avaliar a pertinência ou não dentro dos parâmetros espíritas. Naturalmente que esta postura exige estudo e maturidade do grupo no domínio do conhecimento mediúnico; 
  • Ênfase na espontaneidade. Em contraponto à rigidez de procedimentos, promover uma relação espontânea de desenvolvimento dos trabalhos mediúnicos, adaptando-se às necessidades específicas de cada encontro; 
  • Flexibilidade mental para o debate. Estar aberto para o aprendizado e para a superação de paradigmas; 
  • Ecumenismo espiritual. Nada de preconceito, pelo contrário, permitir que o intercâmbio espiritual e os projetos não se restrinjam, por exemplo, aos espíritos espíritas. “A cada dia, as almas que desencarnam sem conhecimento e conscientização das verdades espirituais, embora portadoras de um estado de consciência impoluto, buscam os medianeiros para testemunhar sobre suas experiências. Eles são políticos, educadores, religiosos de várias denominações, escritores, militares, artistas, advogados, descobridores e inventores, cientistas, servidores do bem de todas as latitudes, ou ainda mesmo, os enfermos de etiologia obscura”. (Amália Aragão, em Seara Bendita). Um passo a mais. Avançar na participação de espíritos de diversas culturas espirituais como pais-velhos, caboclos, orientais, enfim, todos que efetivamente tenham compromisso com o bem; 
  • Convivência saudável com o animismo. “Nas práticas bem orientadas não há porque cultivar temor e escrúpulos quanto às influências dos conteúdos anímicos nas comunicações, haja vista que não há como desvincular um do outro. (…). Não havendo como exterminar o animismo, deveremos a ele adequarmo-nos, tornando-o, o quanto possível, elemento de soma e parceria nas edificações espirituais.” (Yvonne do Amaral Pereira, em Seara Bendita); 
  • Compartilhamento espiritual. Proporcionar uma relação madura com médiuns, espíritos e mentores dentro da seara espírita, sem estimular comportamentos de dependência, ritualismo, dogmatização e fantasia, transformando-os, muitas vezes, em mitos inatingíveis; 
  • Cooperação para o intercâmbio de experiências. Estimular a troca de experiências das casas espíritas para fortalecimento do aprendizado conjunto; 
  • Exercício da humildade. Trabalhar a humildade como elemento primordial para construção de um ambiente sadio de relacionamento do grupo mediúnico para que o orgulho – e suas diversas formas de manifestação, e, sobretudo, o melindre – seja gradualmente identificado e vencido, individualmente e em grupo; 
  • Abertura para outras concepções sobre a mediunidade. Estudar, sem preconceito, as contribuições sobre mediunidade geradas noutros ambientes de manifestação mediúnica não espírita aproveitando aquilo que se revelar importante para o desenvolvimento das atividades; 
  • Conexão com outros saberes. Exercitar a transdisciplinaridade com outros saberes da ciência e como isto poderia ajudar no entendimento e avanço dos fenômenos mediúnicos;
  • Relação amadurecida com os espíritos. Em vez de doutrinar, esclarecer. Em vez de superioridade, igualdade. Em vez de supremacia dos nossos pensamentos, estar aberto para ouvir o outro; 
  • Aprendizado permanente da dimensão espiritual. No atual estágio evolutivo humano, pouco sabemos de concreto da realidade espiritual. Imprescindível, portanto, estar atento para aprender com novas informações sobre a dimensão do espírito; 
  • Postura de despretensão. Diante dos avanços obtidos nas novas práticas, o grupo mediúnico deve ter a consciência de que não é melhor do que nenhum outro grupo, mas apenas um conjunto de pessoas em processo de evolução espiritual; 
  • Vivência do amor. Todas as atividades espíritas – e principalmente a mediúnica – devem estar centradas na aprendizagem do amor, no desenvolvimento do amor entre seus participantes. Se isto não estiver acontecendo algo deve estar errado e deve-se imediatamente serem revisadas as práticas atuais. 

A mediunidade de parceria vai ao encontro das necessidades dos membros daquelas casas espíritas que recebem novas demandas e, por isso, devem adotar uma postura flexível diante do conhecimento espírita; que não têm medo de verem as suas certezas abaladas e que estão sintonizadas com a linha de raciocínio do mestre Allan Kardec, isto é, que procuram desenvolver uma fé raciocinada.

 

Foto ilustrativa: www.neas.org.br

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