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A Sabedoria de Calar

Enviado em 4 de novembro de 2016 | No programa: Jornal Nova Era | Escrito por Enéas Canhadas | Publicado por Juliana Chagas

Mulher com fita vermelha colada na bocaIronicamente talvez sejam necessárias muitas palavras para refletir sobre o calar, sobre a arte de ficar em silêncio.

A sabedoria de ficar quieto nas mais diferentes situações da vida parece ser algo quase impossível. É muito comum uma pessoa ser apontada como fechada, calada, tímida ou retraída, ou anti social quando fica quieta numa situação social qualquer. Todos os apelos que nos vêm de fora parecem nos solicitar fortemente para falar, comunicar, expressar idéias ou sentimentos e, se não o fazemos, logo nos classificam em alguma categoria de problemático.

Antigamente, ficar em silêncio talvez fosse algo mais natural, apelos menores, meios de comunicação menos atraentes ou restritos, o nosso cotidiano possuía menos pessoas ao redor. Basta refletir um instante sobre uma vida sem whatsapp, sem internet ou sem um smart phone nas mãos.

Como ficar em silêncio hoje em dia?

Para que haja sabedoria em não falar, não basta fechar a boca. O problema começa com o domínio do próprio corpo, melhor dizendo, domínio da língua (1). Saber controlar e dominar a língua, escolher momentos apropriados para calar ou para falar moderadamente, ser prudente, e possuir discernimento para as ocasiões em que o silêncio é essencial e permanecer com firmeza inabalável ao observar, ouvir e simplesmente não opinar quer seja, por falta de clareza, quer seja para não julgar as atitudes de alguém, requer reflexão, conhecimento e clareza de pensamento como nos ensina o escritor do Eclesiastes (2).

O Abade Dinouar (3) que publicou em 1771 sua “A arte de calar, principalmente em matéria de religião” afirma ao nos ensinar sobre esse assunto que, calar é o “primeiro grau da sabedoria”, vindo depois o “saber falar pouco e moderar-se no discurso” para finalmente apresentar o terceiro grau que é “saber falar muito sem falar mal e sem falar demais”.

Que princípios podemos adotar para saber calar? E o tão falado bom senso?

Quer nos parecer que simplesmente o bom senso pode não ser suficiente para desenvolvermos esse saber. Pitágoras nos contempla com o pensamento “se o que tens a dizer não é mais belo que o silêncio, então cala-te”. Esse talvez seja um precioso princípio que o próprio Abade nos recomenda. O senso pode nos ajudar muito mas, a pessoa precisa saber porque, como e quando está sendo exercido.

O bom senso não vai surgir de alguém que não tem consciência do seu discurso e também não possui princípios bem claros de como conduz sua vida. Esses princípios também podem ser firmados a partir do texto de Eclesiastes já citado antes do “tempo para todo propósito”. A sabedoria desde a antiguidade nos mostra, ao contrário do que se faz muito hoje em dia, que o calar vem antes, isto é, em primeiro lugar em relação ao falar.

Pois a franqueza e a imprudência  de ficar calado, se pudermos falar assim, será equivalente à leviandade e indiscrição em falar quando se deve calar. Este também é um conselho do Abade Dinouart. Muitas vezes nos arrependemos de falar e também sofremos por ter falado algo que deveríamos guardar dentro de nós, mas o que ainda não foi falado pode vir a sê-lo enquanto que o que foi falado nunca mais poderá ser apagado.

As palavras lançadas da boca não voltam. O ser humano é dono de si mesmo mais do que nunca quando fica em silêncio. Todos podem especular sobre o que uma pessoa ainda não falou mas muito mais será especulado, comentado e julgado sobre o que se falou. Por isso os segredos sempre guardam, mesmo quando retém fatos ou experiências ruins, pelo menos o poder do silêncio que é preservado ou garantido pela pessoa que guarda tal segredo.

Em geral não há excesso no silêncio ou no calar, mas o falar contém, muitas vezes, os excessos e descuidados. O Abade nos exorta para o fato que “não há mais mérito em explicar o que se sabe do que em calar o que se ignora”. Não é difícil saber que alguém que fala demais pode muito bem ser tomado como louco ou inconseqüente e alguém que fala pouco e tem a sabedoria de calar na maior parte das vezes, pode pelo menos, guardar para si a oportunidade de ainda ser visto como medianamente sábio ou até mesmo como simples, porém, alguém que não se põe a falar desvairadamente. No entanto, para calar é preciso ser sincero e ficando em silêncio, ainda é possível que o coração esteja aberto, e ser discreto não precisa conter uma dose de mau humor ou de sombra no modo de ser.

O silêncio como qualidade do Divino.

Quer nos parecer que o que é solene está para o Caráter Divino assim como a calma e a mansidão estão para a Sabedoria. O silêncio sempre nos remete à reflexão e à solenidade. Os templos parecem nos fazer a síntese de um comportamento reverente e cuidadoso, talvez sinônimos de sabedoria. Curiosamente os silêncios geram queixas. O ruído chega a nos parecer muito mais familiar e sua influência sobre nós parece nos livrar do pensar, inclusive sobre nós mesmos.

Instantes de silêncio nos remetem a um recanto das nossas almas localizando dentro de cada um de nós, a porção espiritual. O retiro, a calma, o afastamento das turbas é grande coisa para se conseguir grandes coisas. O filósofo disse: quanto mais me afasto dos homens, mais me aproximo de Deus; e o poeta acrescenta: Deus fala quando as turbas estão quietas, e as campinas em flor.” Outra referência enfática está registrada no Livro do Profeta Amós, no Velho Testamento “portanto, o que for prudente guardará então silêncio”. Curioso observar como o silêncio aparece inúmeras vezes associadas aos comportamentos e atitudes de prudência, como já pudemos observar acima sobre os princípios para saber calar.

O silêncio pode ser considerado necessidade ou qualidade?

Vamos, de novo, recorrer ao Abade de Dunouar (4) que nos ensina que as diferentes maneiras de calar nascem da variedade do temperamento e do espírito dos homens.

“O silêncio prudente convém às pessoas dotadas de um bom espírito; de um juízo correto e de uma aplicação exata em observar as conjunturas que levam a calar ou a falar.

O silêncio artificioso agrada aos espíritos mesquinhos, às pessoas desconfiadas, vingativas e ocupadas em surpreender os outros.

Aqueles que são de um humor doce, fácil e acomodatício têm mais propensão ao silêncio complacente.

Aqueles que gostam de se divertir com tudo, gostam também do prazer que encontram num silêncio zombador.

O silêncio espirituoso só subsiste com paixões vivas, que produzem efeitos sensíveis exteriormente e que se mostram no rosto daqueles que são animados por ele. Vê-se assim que a alegria, o amor, a cólera, a esperança impressionam mais pelo silêncio que os acompanha do que por discursos inúteis, que só servem para enfraquecê-los.

É fácil julgar a que convém o silêncio estúpido; é o quinhão dos espíritos fracos e imbecis.

Ao contrário, o silêncio de aprovação supõe um julgamento seguro e um grande discernimento, para só aprovar o que merece ser aprovado.

A última espécie de silêncio, que é a do desprezo, é efeito do orgulho e do amor-próprio, que leva os homens com essa característica a pensar que ninguém merece um só momento de sua atenção. Às vezes, também, este silêncio pode ser encontrado em um homem de juízo, que não julga que o que ele despreza com seu silêncio seja digno de maior consideração.”

Agora vejamos. Para um psicoterapeuta que conta com o compartilhamento que se dá no consultório através das palavras e conversas, como pensar sobre o falar. Duas coisas importantes ao final dessas reflexões. Quando o cliente está falando ou contando uma parte da sua história ou trazendo uma queixa misturada aos seus sentimentos, ele está falando também através das imagens de que se utiliza, ou das expressões que usa com mais insistência e até mesmo das palavras que aparecem mais frequentemente nas suas falas.

O existir humano desse cliente está calcado nessas expressões que contém um significado próprio na sua maneira de ver o mundo e viver a sua existência. É preciso, aos poucos, desvelar esses significados que, talvez, ele mesmo não conheça ou ainda não lhe foi revelado. Ele fala porque está cheio de significados, porém ainda não parou para apreender tais significados e o que o move a repeti-los. Acrescente-se o tom de voz, a força, o timbre e a velocidade com que tais palavras ou expressões são utilizadas e teremos ainda mais “roupas” ou adereços ao que ele sente no seu dia-a-dia sobre o assunto de que trata.

Mas pode ser, como acontece conosco, que quando estamos com frio, coloquemos várias peças de roupa umas sobre as outras, e não nos damos conta de quais são elas, ou de quantas são ou mesmo do seu material ou cores. O que nos protege do frio, então, pode nos ser desconhecido.

A outra face do falar humano se dá através dos silêncios que são frequentes no processo terapêutico. Digamos que é o silêncio que fala. O terapeuta não pode desprezar os silêncios que surgem quando eles estão dizendo coisas. Talvez o terapeuta não sabe exatamente o que está acontecendo naquele universo interior, porém o ele possui é o momento ou o que foi falado antes, a partir do que, instalou-se o silêncio.

Imagine que você está com amigo, andando por um bosque e, em determinado momento, você faz um comentário sobre o que falavam e, de repente, o seu amigo continua andando mergulhado em profunda introspecção ou silêncio e até mesmo o deixa um pouco atrás no caminho em meio ao bosque. Você respeita e reflete sobre o momento que trouxe o silêncio como continuação do diálogo.

Falar, silenciar, falar de mais, falar de menos. Muitas são as possibilidades do ser humano, desde que conseguiu lá na sua infância articular os primeiros sons, reconhecer os sentidos e saber a quem dirigi-los. Cada um de nós, introduziu-se sutilmente no diálogo humano!

(1) “Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça no falar é perfeito homem, capaz de refrear também todo o seu corpo” Carta de Tiago escrita às 12 tribos de Israel, Cap. 3:2.

(2) Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu: (…) tempo de estar calado, e tempo de falar.” Eclesiastes, cap. 3: 1-8.

(3) Abade Joseph Antoine Toussaint Dunouart, nascido em Amiens, em 1716.

(4) Obra “A Arte de Calar”, Martins Fontes, São Paulo, 2001.

Foto ilustrativa: pexels.com

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