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Sobre castigos e reparação

Enviado em 24 de agosto de 2016 | No programa: Educação para Todos | Escrito por Cláudia Mota | Publicado por Juliana Chagas

Pernas de adolescente com tênis all star

A adolescência é um grande desafio não só para a família mas para a sociedade de um modo geral.

A neurociência sinaliza essa fase como de reconfiguração das sinapses. Aquela criança que amava e até mesmo idolatrava seus pais, agora os vê com estranhamento. O amor antes cego, agora tem que ser reconquistado em outros níveis. Os pais são vistos como seres de carne e osso e têm que reconquistar o sentimento a admiração e o respeito dos filhos de antes.

Se essa situação não fosse complicada por si só, comportamentos inadequados e inesperados farão parte da rotina familiar. O garoto ou a garota tornam-se desajeitados, mau-humorados respondões. Aquela pseudo harmonia é demolida dia-a-dia.

Segundo Rodrigo Sartorio mestre em neurociências: “A diminuição das áreas de recompensa do cérebro expõe os adolescentes aos comportamentos impulsivos próprios da idade, mas principalmente ao uso de drogas abusivo, entre elas o álcool, as drogas estimulantes, que aumentam as concentrações de dopamina na fenda sináptica, e o tabaco, que coopta amplas áreas do cérebro, incluindo os sistemas de recompensa e apresenta alto potencial aditivo.” http://neuropsicopedagogianasaladeaula.blogspot.com.br/2012/05/desenvolvimento-neural-e-comportamental.html0

Simultaneamente a esse turbilhão biológico e familiar, o jovem inicia sua vida social independente. Há uma variação no grau de liberdade que cada família proporciona ao adolescente, mas, de um modo geral, idas ao cinema e ao shopping, dormir na casa de amigos são práticas comuns nessa faixa etária.

O grande desafio dos pais ao meu ver é dosar a liberdade e aliá-la a responsabilidade. Fazer com que o jovem entenda que a liberdade e a responsabilidade são irmãs gêmeas é uma tarefa hercúlea. É nesse aspecto que vamos tratar a questão de castigo e reparação.

Para a discussão, usarei o caso de obtenção de boas notas na escola. Bem no momento de transformação do filho é comum que os pais utilizem a escola e as notas como moeda de troca nas relações com seus adolescentes;  e é aí que as batalhas acontecem.

As questões de escola e nota devem ser ampliadas, o universo escolar , por mais que se façam críticas, é o primeiro ambiente fora do doméstico em que a criança terá que se relacionar. Questões como compromisso, engajamento, responsabilidade transcendem as questões de notas, provas e afins. Posturas inadequadas quanto ao trato com os colegas e professores devem ser pontuadas como ensaio para a vida em sociedade. Burlar essas regras é normal nessa fase mas inadmissível na vida em sociedade; sinalizar o que é certo e errado, mostrar o binômio causa/consequência é fundamental.

 

Castigo tem a ver com uma resposta rancorosa e vingativa dos responsáveis diante de uma falta mais do que com a falta propriamente dita, por isso o castigos desvinculam-se das faltas. Perder uma viagem de formatura por não fazer as tarefas de casa é um exemplo.

O diálogo e o significado das obrigações devem fazer parte de um contrato social, explicito ou implícito. Esse contrato é o caminho que norteia a família no conceito de reparação.

Quando o jovem entende que respeitar os mais velhos, fazer as atividades domésticas, cumprir as tarefas escolares, atender às chamadas de celulares dos pais, avisar onde vai, se chegou, etc, são ações justificadas como práticas que permeiam o mundo adulto e que tem muito mais a ver com respeito, solidariedade, comprometimento, são mais do que regras vazias destituídas de sentido ou que representam apenas autoritarismo dos adultos.

Reparar essas faltas é retornar para o caminho do Bem e para adequação aos valores sociais. As reparações decorrentes dessas faltas devem acontecer de modo a atentar o jovem a esses valores.

A vida em grupo com adolescentes oriundos das mais diversas educações podem nublar os valores familiares e colocar em cheque os porquês que os consolidaram. Educar e orientar essa faixa etária é estar disposto a revisitar e refazer esses valores agora a partir de diálogos francos.

De acordo com a psicopedagoga Stefânia Lonza: “ao adotar uma nova postura com o filho que cometeu o deslize esperasse que, consequentemente, a devolutiva dele, seja a outra; a maior rigidez e a maior exigência diferente do que ele estava acostumado pelos responsáveis vai fazer com que ele dê um tempo (reflita) nas atitudes que ele estava fazendo”.

Outro ponto importante nesse contexto é a questão do tempo para os jovens. , a dúvida de até quando essa nova dinâmica (os pais solicitando reparações)  auxilia na reflexão, pois um castigo é definido e administrável, a reparação dependerá da atitude do adolescente, ou seja, a dica é que os responsáveis usem o tempo a seu favor, mobilizando a vontade de mudança do adolescente.

Pensemos na figura de um carretel, a figura de enrolar e desenrolar a linha. A liberdade e reparação sob o ponto de vista dos pais é a administração desse carretel. Notas ruins são fatos em si, mas a causa pode ser ampla, o castigo não corrige a causa, mas a reparação deve ser orientada de forma que o jovem use sua vontade e tempo para resolver o problema. Na prática, os pais soltam ou recolhem a linha dando a oportunidade da apreensão da liberdade; as vezes  os pais ao soltar a linha antes do jovem estar preparado pode ter sido a causa de deslize, complementa o raciocínio Stefânia Lonza.

Como pais é fundamental:

  • Compreender as capacidades e vulnerabilidades de nossos filhos
  • Manter um ambiente de segurança, onde o adolescente se sinta livre para expressar suas inquietações.
  • Oferecer a eles independência, mas sem ser permissivos.
  • Falar de nossas experiências juvenis, porque eles podem tomar como referências  importantes para sua maturidade cerebral.
  • Alimentar de maneira positiva a forma como tomam decisões com  base em situações cotidianas.
  • Valorizar a importância da educação como base para um futuro gratificante.

 

Acredito que a mudança de linguagem é um dos caminhos para desmanchar esse emaranhado. Tratar ou referir-se ao jovem como uma criança de 8 anos apenas potencializa a infantilização do adolescente em crise que está tentando superar essa mudança de fase criança X adulto. Promover diálogos debatendo as questões familiares e demonstrando os valores que norteiam esse círculo podem esclarecer alguns pontos.

 

Foto ilustrativa: pexels.com

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