QUER RECEBER NOSSAS NOTÍCIAS EXCLUSIVAS?

-->

“Estude a si mesmo, observando que o autoconhecimento traz humildade e sem humildade é impossível ser feliz.” André Luiz

Artigos

Dez lições sobre carreira e vida, escondidas num filme espírita

Enviado em 15 de maio de 2019 | Escrito por Alexandre Caldini | Publicado por Rádio Boa Nova

Por Alexandre Caldini

 

Sou espírita e fã de Allan Kardec.

Mas também sou executivo e fã dos negócios.

E foi com esse olhar, de espírita e executivo, que assisti a uma avant-première do filme Kardec, que será lançado agora, nesta semana, dia 16/05, nos cinemas brasileiros.

Kardec é daqueles filmes brasileiros que nos orgulham

Kardec é daqueles filmes brasileiros que nos orgulham por sua qualidade.

Muito bem executado. Percebe-se um roteiro bem estruturado que prende a atenção do começo ao fim, emociona e nos faz torcer pelo casal protagonista. A fotografia e os detalhes da cenografia são primorosos, contribuindo para a beleza e carga emocional de cada cena. Os atores, adultos ou crianças, todos assumem seus personagens com profundidade, leveza e naturalidade. Tudo tão bem cuidado que por quase duas horas vivemos em Paris! Uma Paris que já em 1860 era inigualavelmente bela e romântica, onde as casas ainda eram iluminadas por velas e o transporte feito em carruagens.

O filme que se dedica a mostrar o início do espiritismo, me surpreendeu por sua sensibilidade para questões absolutamente atuais, vivas em brasa, do Brasil deste século 21.

Kardec aborda temas atuais, que já eram atuais há 150 anos!

O filme – talvez sem que tenha sido desenhado para tal – aborda temas contemporâneos e caros à nossas vidas, nossas carreiras e nossos negócios nos dias de hoje. Kardec em 1860 já travava árdua batalha em ao menos oito frentes: o convívio
com a diversidade, a intolerância religiosa, o saudável ceticismo versus a igualmente saudável abertura ao novo, a censura, a educação religiosa nas escolas, o papel da mulher, a desigualdade na distribuição de renda e o suicídio. Temas atuais e relevantes, que já eram atuais e relevantes há mais de 150 anos!

Mas além de discutir temas atuais, o filme sobre Kardec, se observado atentamente, nos traz pensamentos inspiradores na gestão de nossas carreiras, negócios e vida.

Veja a seguir 10 dicas preciosas extraídas de situações expostas no filme.

O ceticismo saudável aliado à abertura para o novo

Sabe aquela brincadeira do copo onde se pergunta algo para supostos espíritos e o copo se mexe indicando a resposta? Pois é, a brincadeira original, avó da brincadeira do copo, estava muito em moda na França lá pelos idos de 1850. Nas festas, por toda a
Europa, o grande barato era reunir os amigos, colocar as mãos sobre mesas redondas e observar essas mesas levitarem! Mais ainda, as mesas respondiam às perguntas com um sim ou um não, batendo no chão.

Mas nem todos divertiam-se com essa tal conversa com espíritos. Alguns duvidavam.

Hippolyte Léon Denizard Rivail era um deles. Respeitado intelectual na França do século 19, aluno e discípulo de Pestalozzi, Rivail era professor, autor de vários livros didáticos e ativo membro da prestigiada Real Academia de Ciências Naturais. Um
cérebro privilegiado, um rigoroso homem da ciência, guiado pelo ceticismo e pela lógica.

Intrigado e desconfiado com as mesas falantes, Rivail se outorgou a missão de desmascarar a farsa. E de fato, como nos mostra o filme, ele encontrou charlatões que, usando de imãs, faziam mesas voar para ganhar uns trocados com a credulidade humana. O ceticismo de Rivail tinha se provado útil.

Mas, convidado por amigos em quem confiava, Rivail, ainda que meio a contragosto, aceitou participar de uma reunião com gente que não encarava as mesas girantes como uma brincadeira, mas como um genuíno meio de comunicação com os que

já haviam morrido. E na reunião Rivail se surpreendeu com o que (não) viu: nada de truques, nada de fios, nada de imãs. Intrigado com o que vivenciou ponderou que, não havendo truque, as mesas que respondiam de forma inteligente, teriam obrigatoriamente que estar sendo dirigidas por alguma inteligência.  Apesar de nada daquilo fazer sentido do ponto de vista da ciência conhecida até então, o professor Rivail – cético, sério e inteligente – ao invés de negar o que desconhecia, aceitou o desafio de, honestamente, com isenção e metodologia científica, investigar a novidade.

Primeira dica: você abraça o novo?

Será que – no nosso dia a dia, em nosso trabalho, em nossa vida afetiva ou familiar – nós agimos como o professor Rivail? Quando nos deparamos com algo desconhecido, algo novo, diverso e estranho, diferente do que pensamos, gostamos ou conhecemos; aceitamos pensar a respeito? Topamos checar nossas mais sedimentadas certezas? Temos segurança para isso? Aceitamos de coração e mente abertos considerar e estudar o novo? Ou turrões, nos fechamos em nossa posição e negamos as evidências?

 

Não defenda o indefensável

Rivail empregou um método simples, mas correto em lógica para certificar-se que de fato havia a comunicação de espíritos nas mesas girantes: usando de diferentes médiuns em várias partes da França e no exterior, ele formulou uma série de perguntas. Rivail buscava verificar se as respostas seriam coerentes. Se as respostas fossem similares vindo de várias fontes distintas  (médiuns que não se conheciam), então haveria mesmo de haver alguma inteligência extracorpórea em comunicação. Para sua surpresa e encanto, as respostas batiam!

Depois de muito estudo Rivail se convence de que espíritos de fato existem e que a comunicação entre vivos e mortos – conhecida desde sempre entre todos os povos, das pitonisas gregas aos xamãs siberianos – era mesmo verdadeira. Nesse momento Professor Rivail adota o pseudônimo Allan Kardec que, segundo comunicação mediúnica, teria sido seu nome em encarnação anterior.

Começam ali os problemas de Rivail, agora Kardec, com os intelectuais franceses, seus colegas da Real Academia de Ciências Naturais. Os demais membros da academia recusavam-se a sequer ouvir os argumentos, os estudos e evidências da pesquisa
cientifica feita por ele. Fecharam seus olhos, seus ouvidos e seus neurônios na tentativa de manter o status quo e seu poder como elite intelectual francesa.

Ainda assim Kardec não desiste. Segue firme mesmo enfrentando forte oposição de seus colegas que terminam por expulsá-lo a academia. Nessa sua nova fase Kardec vive grande aperto financeiro que o acompanhará até o final de sua vida. Por sua postura
ousada em investigar e alegar comprovação em algo ainda desconhecido pela ciência da época, Kardec, estigmatizado, perde o status, perde alunos e perde dinheiro. Nem por isso deixa de se dedicar à causa que escolheu: compor e divulgar a base do que
viria a ser a filosofia espírita.

Segunda dica: você é coerente e honesto consigo?

Será que nós temos a coragem de seguir defendendo uma posição que sabemos nobre, independentemente das consequências? Ou será que recuamos por medo de que, defendendo ideias não unânimes, percamos nossa aceitação, nossa autoridade, nosso status e nossos privilégios? E qual das duas posturas você acredita que, a médio e longo prazo, traz mais paz e felicidade? Em minha carreira vi gerentes e diretores se apequenarem evitando o confronto para preservar o emprego. Ou pior: vi muita gente defendendo o indefensável, para evitar mostrar algo que lhes ameaçasse a posição.

Isso é honesto? Faz bem para a nossa carreira? Faz bem para nossa autoestima? É claro que não! A honestidade de princípios, a transparência e o compromisso com a verdade e o progresso só reforçam nossa credibilidade, que é fundamental para nossa
reputação, que é fundamental para nossa carreira, nossos negócios e nossa vida.

No filme vemos que Kardec abriu mão do prestígio, do conforto e da inebriante sensação de poder, para ser fiel ao que julgava mais importante que tudo isso.

Resiliência: postura fundamental

Resiliência, conceito absolutamente em voga nos cursos de educação executiva das principais universidades do mundo, parece algo novo, não? Pois em 1860 Kardec já se alimentava de resiliência!

Kardec enfrentou não apenas o ceticismo cego de seus colegas acadêmicos, mas muito pior que isso enfrentou a intolerância, para não dizer a fúria, da então ainda toda poderosa igreja católica. Como no sombrio tempo da inquisição, a igreja católica
queimou seus livros em praça pública na Espanha. Autoritária, foi também a igreja católica que influenciou o imperador francês Napoleão III, levando-o a censurar e proibir a exportação de seus livros. E tanto fizeram que Kardec foi preso. Para ser solto, exigia a igreja, Kardec deveria reconhecer que nada daquilo era verdadeiro e tudo não passava de truque. Kardec sofre, mas recompõe-se e segue firme. Resiliência. Essa sua característica – de se reerguer a cada baque – acaba por levar o espiritismo
aos quatro cantos do mundo, ao Brasil inclusive. Se ele tivesse se acovardado, se tivesse desistido pelas dores morais que sofreu, o que teria sido do espiritismo? Teria existido?

Terceira dica: você aguenta o tranco?

Pressão todos sofremos, sobretudo quando estamos a defender uma causa impopular ou nova. Oposição ainda mais forte sofremos se a causa que defendemos afeta interesses e privilégios de poderosos. Ninguém entrega o poder e o privilégio sem
lutar. Nesse processo nos cansamos, duvidamos, fraquejamos, pensamos que nada vai dar certo, que não temos capacidade suficiente para combater, que não vale lutarmos sozinhos e que o mundo não mudará. E alguns de nós atolamos nesse lamaceiro de lamentos. Outros não. Outros como Kardec seguem, mesmo desgostosos, mesmo inseguros, mesmo cansados e desprestigiados. Os primeiros não conseguem atingir seus objetivos e amargurados lamentam a vida. Outros como Kardec também sofrem, mas não lamentam a vida; agem sobre ela. Esses chegam a algum lugar. São os realmente vitoriosos. E você: consegue se recompor, se reenergizar e seguir adiante?

 

Amélie segura a onda de Kardec

Kardec, humano, como todos nós sofre, bambeia e se cansa. Mas ele tem a felicidade de ter ao seu lado uma bateria de milhões de amperes onde a todo tempo se recarrega: sua brava e doce esposa Amélie Gabrielle Boudet. Apoio incondicional, contraponto e incentivo é o que Kardec encontra em sua esposa. No filme se vê que os diálogos de Amelie com Kardec nos momentos de sua maior angústia, são verdadeiro bálsamo a aliviar suas dores e reforçar sua confiança na missão que assumiu.

Quarta dica: você divide a carga?

Todos sofremos com as mais diversas pressões no trabalho, na família e na vida íntima.

Todos vacilamos. Temos dúvidas, medo, interesses e visões conflitantes. Mas como levamos nossas dores? Buscamos apoio? Cultivamos relacionamentos que nos propiciarão esse apoio de que tanto necessitamos? E o oposto: oferecemos nosso apoio por meio de palavras e atos? Distribuímos gentileza? E se apoiamos o outro; fazemos isso apenas pelo sublime prazer de sermos úteis e ajudar?

A comunhão de ideais entre Kardec e Amélie fica clara no filme. E é linda! Essa comunhão é o chamado amor. Mas apoiar e ser apoiado, ou amar, não é benefício que se conquista exclusivamente pelo casamento. É absolutamente possível amar a todos,
a todo momento e em todos os lugares; inclusive no ambiente de trabalho. Amar é decisão nossa. Amar, no exercício generoso da fraternidade, é o que nos define como humanos.

Igualdade de gênero, já em 1860

Se na França de hoje causa espanto o fato do presidente francês ser casado com uma mulher mais velha, imagine o que significava isso há quase 200 anos. Pois Kardec e Amélie mostravam sua fibra também aí: ela era quase 10 anos mais velha que o marido. Um escândalo para a época!

Amélie Gabrielle, chamada de Gabi por Kardec, não só o apoia em sua luta como toma para si a causa da defesa do espiritismo. Percebe-se nela o que é possível ver em outros personagens ao longo de toda a história da humanidade: uma mulher destemida, inteligente e determinada, em plena ação. Gabi age, ainda que constrangida pela pesada cortina de uma sociedade eminentemente machista.

Quinta dica: você é justo, igualitário?

Gabi, apoiada por seu companheiro de jornada, já há mais de 150 anos espelhava a identidade feminina contemporânea. Mas será que hoje já reconhecemos e oferecemos as mesmas oportunidades, acesso e consideração a todos os gêneros?
Somos justos no trato não apenas com as mulheres, mas com todas as chamadas minorias? No tema igualdade, será que mudamos o suficiente desde o tempo de Gabi e Kardec até hoje, quase dois séculos depois? E se não estamos satisfeitos com essa (não) evolução, qual o nosso papel? O que podemos e devemos fazer a esse respeito tanto no trabalho como na família?

Estudar é insuficiente. É preciso também agir

Em determinados trechos do filme vemos Kardec e Gabi distribuindo pão entre miseráveis nas ruas de Paris. Aparentemente faziam isso todos os dias. O casal estuda, pesquisa a mediunidade, trabalha muito arduamente para estruturar a filosofia
espírita que tomará forma nos livros básicos do espiritismo que acabarão por lançar.

Mas todo esse trabalho não lhes basta. Sentem a necessidade de agir na caridade material, algo concreto, efetivo, imediato, que aplacará a dor dos que tem ainda menos que eles. Estão a por em prática o mote da filosofia espírita, então recém ditado pelos espíritos à Kardec que diz: “Fora da caridade não há salvação”. É a solidariedade em ação, característica tão presente até hoje no movimento espírita.

Sexta dica: você é solidário?

É fácil ser gentil quando ninguém nos agride e generoso quando estamos na abundância. Mas e quando estamos na pior? Quando você está se sentindo desabrigado, agredido e só, consegue ainda assim pensar nos outros? Consegue num duro esforço passar por cima de seus problemas e seguir ajudando quem precisa de seu apoio?

Kardec, mesmo com pouquíssimo dinheiro e incansáveis adversários a lhe fustigar, ainda assim seguia ajudando os mais pobres. Dividia o que praticamente não tinha. Fazemos isso? Dividimos a glória de um trabalho bem feito com os colegas que nos
auxiliaram naquele projeto? Reconhecemos o mérito dos outros? Buscamos levantar a moral dos mais sofridos? Lutamos pelo bem-estar de muitos ou pelo privilégio de poucos? Conversamos de igual para igual com os que estão abaixo de nós na escada da hierarquia funcional?

Lembremos que tudo é precário. Quem hoje está em cima já esteve em baixo e as circunstâncias podem obriga-lo a voltar para lá rapidinho. Não há mérito em se isolar julgando-se elite. Como Kardec e Gabi, há mérito em ser parte da humanidade e por
ela trabalhar.

Terceira idade? Boa hora para começar

Você verá no filme que Kardec e Gabi não eram jovens quando começam a investigar e a documentar os fenômenos e a filosofia espírita. Kardec tinha pouco mais que 50 anos e Gabi mais de 60. Se considerarmos a média de vida em 1860, ambos talvez
tivessem o que hoje equivaleria à mais de 80 anos. A idade, no entanto, não os impede de dedicarem-se com enorme energia a organizar todo um novo conhecimento.

Tenho 56 anos, a idade exata de Kardec em 1860. Nesse ano, com essa idade e em período inferior a cinco anos, Kardec já havia publicado dois livros: O Livro dos Espíritos e O que é Espiritismo. Havia publicado também mais de 30 edições da Revista
Espírita e estava finalizando o Livro dos Médiuns. Havia feito tudo isso enquanto se defendia de constantes ataques da igreja católica e da academia francesa. Fez tudo isso enquanto investigava os fenômenos espíritas, consultava médiuns em várias
cidades e proferia palestras divulgando o espiritismo. Também dava aulas particulares para sobreviver. E, lembremos que naquela época não havia facilidades como internet, computador, smartphones, redes sociais ou mesmo carro. Na verdade, nem energia elétrica havia. Kardec nos mostra que não há idade para se começar algo e nem se precisa de muito – exceto muito trabalho – para alcançar nossos objetivos.

Sétima dica: você acha mesmo que é tarde?

Quantos de nós com muito menos idade que Kardec e Gabi já nos julgamos velhos demais, ou ultrapassados, ou cansados demais para iniciar algo novo? Pior: quantos de nós, arrogantes, julgamos já ter dado contribuição suficiente por ter trabalhado alguns anos? Claro que é importante descansar. Claro que importa divertir-se, viajar, conhecer, curtir. Mas será que não podemos fazer tudo isso enquanto entregamos algo de valor para a sociedade que nos acolhe?

Vejo duas posturas entre amigos que se aposentam: uns amargurados se põem a criticar tudo; outros parecem sentir que, como agora detêm o controle de suas agendas, é chegada a hora de dedicar-se a alguma causa nobre. Esses, independentemente das dificuldades, dedicam-se à outros, aplacam pequenas ou grandes dores, realizam grandes ou pequenos feitos e sentem-se bem, justificados. E você? Já achou tempo para dedicar-se a algo que lhe traga profundo bem-estar? Faz algo que traz significado para sua vida? Nada há de mais reconfortante.

Kardec se demite de seu trabalho, mas não de sua consciência

Professor Rivail (ainda antes de conhecer o espiritismo e adotar o pseudônimo Kardec) era contrário à educação obrigatória de uma religião específica – no caso a católica – nas escolas. Acreditava na liberdade de consciência, na importância de que alunos
fossem expostos à diversas fontes, para que conhecendo um pouco de tudo, tivessem a capacidade de escolher o que lhes conviesse. Logo no início do filme vemos o professor argumentando com o diretor da escola onde leciona contra a imposição de
aulas de religião. Pressionado pela igreja o diretor pede que o professor releve. Depois de muito refletir, Rivail entrega ao diretor sua carta de demissão. E o faz sem ter outro trabalho. Rivail, fiel ao que acredita, opta pela coerência. Corajoso, valoriza o que
acredita ser o certo e não o ganho financeiro.

Oitava dica: até onde você vai na defesa do que sabe ser correto?

Nossa vida é feita de escolhas. A todo momento somos confrontados com decisões. Que caminho tomar? Por onde ir? Que consequências virão da escolha feita? Na maioria das vezes, senão sempre, sabemos qual o caminho mais adequado.
Sabemos onde mora a verdade e a justiça. Mas nem sempre optamos pelo caminho reto. Nosso ego, nossa mesquinhez e nossa ganância são nosso canto da sereia particular, e porque permitimos, vamos para o fundo. Mas a decisão é e sempre será
nossa. E as consequências de nossas escolhas também são e sempre serão nossas. A pergunta então é: temos a coragem de decidir pelo melhor caminho? Pelo caminho do bem? Como Kardec, somos nobres o suficiente para nos sacrificarmos pelos valores que defendemos?

A inveja e o melindre

O filme nos apresenta duas características bem presentes em quase todos nós: a inveja e o melindre. Há uma cena onde uma das médiuns ouvidas por Kardec para a construção do Livro dos Espíritos, irritada, reclama com ele que todo o mérito da
organização do livro ficou com Kardec, e que ela nem é citada na obra. Fiquei com a impressão de que Kardec assim agiu para proteger os médiuns do assédio da igreja e de gente buscando notícias de seus parentes mortos. Mas a médium assim não
entendeu. Para ela foi uma indelicadeza, uma desconsideração.

Nona dica: você reconhece o mérito alheio? E você consegue dominar seu ego?

Em minha carreira já fui confrontado com a exata situação que o filme apresenta. Um diretor que reportava a mim, veio reclamar que eu tomei apenas para mim toda a glória de um trabalho onde ele e outros também contribuíram. E ele estava certo! E você: é generoso e correto e reconhece os outros? Por outro lado, precisa de constantes reforços no ego ou já consegue viver com o reconhecimento que proporciona a si mesmo?

Fama ou relevância?

Kardec por vezes fica inseguro. Não tinha certeza se deveria mesmo continuar em sua difícil empreitada que não lhe traz dinheiro, prestígio, fama ou tranquilidade; mas ao contrário, só traz árduo trabalho, desconfiança, crítica, censura e repreensão.

O filme nos leva a pensar porque alguém optaria por algo tão difícil quanto enfrentar o desconhecido, ser rechaçado pela ciência de então, pela sociedade conservadora e pela igreja? Nesse momento me vieram à mente Galileo Galilei e Giordano Bruno que
cerca de 250 anos antes de Kardec também sofreram a perseguição da igreja católica ao afirmar que a Terra não era o centro do universo. Bruno, que era frade dominicano, foi considerado herege e queimado vivo pela inquisição.

Por que seres como esses se dispõem a tamanho sacrifício quando poderiam viver uma vida mais segura e tranquila? Estaria Kardec em busca de fama? Não me parece.  A resposta que me ocorre é que talvez Kardec, Galileo, Bruno e tantos outros tenham sido motivados por amor à verdade, amor à sabedoria e ao bem maior. Mas curiosamente, mesmo que não estivessem em busca de fama, quem a história acabaria por louvar? Alguém sabe o nome dos intelectuais e dos padres que se
opuseram à Allan Kardec? Já o trabalho e a nobre personalidade de Kardec são reverenciados agora, 150 anos após sua morte, com um filme sobre ele, produzido e exibido num país onde ele nunca esteve, mas que se tornou o maior país espírita do
mundo!

Décima dica: tem certeza que você quer mesmo ser famoso?

Num mundo que vive imerso em Big Brothers, Master Chefs e The Voices, a fama tornou-se o objetivo de muitos de nós. Por quê? Será que a fama de fato nos sustentará? O que a fama acrescentará à nossas vidas? Nos propiciará real felicidade?
Ou será que, como Kardec, deveríamos focar nossos esforços em algo relevante, algo que fará bem à humanidade? E você: para onde tem direcionado seu olhar e sua capacidade?

Em resumo o filme sobre Kardec, além de belo e muito bem executado, tem o mérito de nos levar a considerar toda uma série de posturas e crenças presentes em nossas vidas no trabalho, na família, no relacionamento afetivo e na sociedade.

O filme nos mostra um personagem como nós, com suas angústias e dúvidas, mas que opta pela coragem, pela retidão de caráter e pelo compromisso com o bem de todos.

Um personagem que aceita o desafio de pensar o impensado e explorar o inexplorado, ainda que isso lhe custe. Alguém que vive pela lógica, alguém coerente com o que pensa e que abraça a diversidade e a compreensão. Alguém que luta contra o maniqueísmo, o absolutismo, a censura e a intolerância. Um personagem que viveu há 150 anos, mas que representa e inspira os justos dos dias atuais.

*Alexandre Caldini foi presidente da Editora Abril e do jornal Valor Econômico, e é autor de livros sobre espiritismo e negócios.

 

 

 

 

 

Você gostou deste conteúdo?

Todo o conteúdo produzido pela Fundação Espírita André Luiz é aberto e gratuito e, com a sua ajuda, sempre será.

Ao todo são transmitidas 180 horas mensais de programas ao vivo e 240 horas mensais de programas inéditos através de nossos canais de comunicação: Rádio Boa Nova, Tv Mundo Maior e Portal do Espírito. Nós acreditamos que o acesso aos ensinamentos da doutrina espírita muda o mundo, mas manter uma estrutura deste porte é muito caro, por isso a importância do apoio de nossos leitores.

Quando você apoia iniciativas como a nossa, você faz com que pessoas que não podem pagar pela informação continuem tendo acesso a ela.

Ajude o espiritismo a alcançar mais pessoas

Apoie essa causa <3

Deixe seu comentário:

WhatsApp