Como sentimos o luto no afastamento social?

Ansiedade, depressão, angústia, medo e crises de pânico. Esses são só alguns efeitos que o isolamento social causa no nosso cérebro. Mas e quando temos que lidar com o luto justamente neste período tão tenso?Quais os efeitos de lidar com a passagem de um ente querido para o plano espiritual em meio a uma medida de segurança que nos afastam uns dos outros? Lidar com o luto solitário será uma nova prova que teremos que passar como sociedade?

Como sentimos o luto no afastamento social?

Muito se é falado sobre o temido e ao mesmo tempo, inevitável, afastamento social e os efeitos que são gerados com ele. Por ser uma medida restritiva que deverá ser cumprida por determinação de órgãos competentes e não uma escolha individual, é natural entender que essas práticas gerarão efeitos psicológicos e comportamentais na sociedade.

O medo da pandemia, a incerteza do que vai acontecer e o afastamento social, fazem com que a gente libere certas substâncias no nosso organismo que vão atuar no nosso sistema nervoso, nos deixando mais angustiados, ansiosos, estressados e podendo ser até um gatilho para doenças e sintomas mais graves, como a depressão e o pânico.

A preocupação com a saúde mental em virtude do isolamento é cada vez mais necessária mas não será a única. A pandemia do novo coronavírus também interferiu no nosso processo de luto. 

Viver essa dor sozinho é a realidade de milhares de brasileiros que estão passando pelo luto totalmente solitários.

Mesmo os espíritas não estão livres de sentir medo e tristeza nessa situação.

Imaginar que temos uma vida que nunca se extingue com a deterioração da parte física, não é fácil, mas não quer dizer que seja impossível.

Não temer a morte e estar preparado para ela, pode ser o primeiro passo para passar por esse “luto solitário”. Conversar com os familiares e amigos sobre ela pode ser uma boa maneira de naturalizar essa passagem.

Na falta daquele abraço apertado que conforta e alivia o sentimento de “perda”, se abrir com os mais próximos sobre esse luto, seja por uma ligação, mensagens de texto ou por videoconferência na internet, tem sido a solução mais prática e segura para os enlutados.

Nesses casos em que não foi possível nem mesmo uma última palavra ou qualquer despedida, sabe-se que na ausência do concreto, temos uma tendência de procurar o simbólico como por exemplo visitar o túmulo onde o ente querido foi enterrado, perdoar a si mesmo e ao desencarnado caso tenha acontecido algum desentendimento do passado e sempre cultivar lembranças positivas sobre aquela pessoa.

Repensando a morte o luto

Para Alexandre Caldini, palestrante, pesquisador espírita e autor das obras, “A vida na visão do espiritismo” e “A morte na visão do espiritismo”, temos uma relação ambígua com a morte. O conceito da morte ou simplesmente da finitude corpórea, é sempre vista com um olhar dicotômico entre a morte implacável e cruel, que nos tira as pessoas mais amadas de nossas vidas e uma morte que atende o chamado da natureza, uma morte que apenas faz parte da vida. Nós como indivíduos escolhemos a abordagem que damos para esse evento inadiável da vida.

A gente não pode se surpreender com a morte. Todos sabemos que morreremos. Alguns morreram jovens, com 50, 40 ou 12 anos, outros morreram mais velhos, com 80, 90 ou 100 anos. Não somos nós que decidimos.

Para Caldini, a morte é amoral, ela simplesmente é.

Quem diz que ela é boa ou ruim somos nós. Nós atribuímos moral para pessoas e a atitudes, no entanto, a natureza não segue a nossa moral. Na verdade, ela não segue moral alguma, por isso não devemos ver a morte como algo negativo.

Não é porque somos espíritas que vamos ficar tranquilos com a perda de nossos familiares. Na realidade, não é que as pessoas não querem morrer, elas não querem é sofrer. Então se queremos evitar algum sofrimento, façamos por merecer, estudando e adquirindo conhecimento. É importante lembrar que o estudo e o aprendizado liberta. E, acima de tudo, o exercício da calma também é uma força.

Além disso, com o passar do tempo, a sociedade ocidental desenvolveu diversos hábitos que terceirizam a morte. Isso quer dizer que, cada vez mais, somos estranhos a ela. 

Quando algum parente que nos é caro falece, por telefone ligamos para uma ambulância que o leva para o hospital, chegando lá, acontece o atestado de morte, o  corpo é levado para o necrotério e horas depois, o parente é velado no cemitério e não mais em casa como antigamente.

Coronavírus

Com a chegada do Coronavírus, nem isso é possível mais. Todo esse processo foi reduzido e o que sobrou foi lidar com essa situação sozinho. Nunca estivemos tão longe da morte.

Essa espécie de terceirização virou o procedimento básico na nossa sociedade pois é muito mais prático e eficaz para a família, no entanto, inconscientemente, nos deu uma ideia da morte como algo sujo, triste e assombroso.

Quanto mais afastados da morte, mais ela vai nos surpreender.

Quando não temos noção dos princípios do espiritismo, o luto realmente torna-se solitário, pois sempre achamos que estamos sozinhos, quando na verdade, estamos sendo constantemente amparados por uma grande equipe de espíritos que nos orientam do plano espiritual. Inclusive o próprio ente querido que acabamos de “perder”.

Independentemente de estarmos em meio a uma medida de afastamento social, sempre estaremos ligados ao nosso espírito mentor que nos guia.

Afastamento social como uma oportunidade

Repensar a morte também nos faz repensar o próprio conceito de afastamento e de solidão. Ao invés de enxergar o afastamento como uma punição, a doutrina dos espíritos nos ensina que podemos encará-la como uma prova, onde o único caminho que existe é olhar para dentro de si mesmo e buscar o autoconhecimento.

Para isso, não precisamos reinventar a roda. Lá na Grécia antiga, gravada na entrada do santuário de Delfos, podemos ver a frase: Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses.

Alexandre nos conta ainda que, viver este período sozinho é uma ótima oportunidade para perceber que estando sozinhos, não estamos a sós, mas estamos na presença de nós mesmos.

Para quem estiver menos preparado, para quem for mais apegado e quem for mais ignorante para essas questões do espírito imortal, será mais difícil trilhar esta jornada. Uma mãe que tem filhos pequenos não desencarna de maneira fácil, mas é preciso entender que chegou a hora dela; os filhos deixados, não são apenas crianças, são espíritos que precisam passar por esta experiência. Quando entendemos isso, passamos a dar mais valor àqueles que nós amamos tanto, valorizando cada segundo que estamos ao lado deles.

Orar e vigiar

Viver o luto é a parte mais importante na superação deste, seja ele solitário ou não. Não sinta medo de chorar, de sofrer ou de sentir dor. Compreender que a vida não acaba é a melhor forma de superar essa dor passageira e manter uma comunicação com o ente querido por intermédio dos pensamentos e energias positivas que são direcionadas ao plano espiritual pelas nossas preces e orações.

 

Escrito por: Igor Oliveira

Assistente de Jornalismo, apresentador do Mundo Maior Repórter e estudante de jornalismo.

 

 

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