Espíritos de pessoas em coma

Por: Isabel Miranda

Como espíritas, aprendemos que cada encarnação se presta a acrescentar novos aprendizados, reparar erros do passado ou até mesmo cumprir missões importantíssimas ao avanço da humanidade. Viemos ao mundo material para fazer, entender ou experimentar coisas que não nos seriam fáceis ou mesmo possíveis no mundo espiritual.

Nesse sentido, situações como o coma, em que a pessoa aparentemente não participa da vida material, costumam nos causar muitas dúvidas. Haveria um propósito nessas vidas? Como agir nesses casos? Certamente, não existe uma resposta única e definitiva para todas as situações, mas podemos, sim, fazer algumas considerações – em especial, analisando o que ocorre com o espírito da pessoa em estado de coma.

A diferença entre coma e morte cerebral

Em primeiro lugar, é importante traçar algumas distinções entre o coma e a morte cerebral.

O coma é considerado uma desordem da consciência. Quando a pessoa está em coma, geralmente, não há indícios de que a pessoa esteja alerta – isto é, a pessoa não abre os olhos, nem tem reflexos básicos como engolir e tossir. Tampouco há indícios de que a pessoa perceba o seu entorno – isto é, que ouça o que as pessoas falam ou entenda o que acontece à sua volta.

No entanto, as desordens de consciência são diferentes da morte cerebral. Na morte cerebral, a pessoa não é capaz de respirar ou manter batimentos cardíacos sem a ajuda de aparelhos. Não há qualquer possibilidade de a pessoa recuperar a consciência, tamanho o dano sofrido. Em alguns casos, a expressão “coma irreversível” é usada como sinônimo de “morte cerebral”, o que contribui para a confusão.

Sem embargo, há distinção essencial entre as duas condições, pois todos já ouviram falar de casos em que a pessoa saiu do coma, mesmo depois de vários anos nesse estado. Um exemplo incrível e recente é o de Munira Abdulla, mulher que permaneceu inconsciente desde o acidente de carro que sofrera em 1991, até 2019 – ou seja, despertou depois de ter passado quase 28 anos nesse estado.

Por outro lado, com a morte cerebral, abre-se a possibilidade da doação de órgãos – que, deve-se destacar, é compatível com a doutrina espírita e incentivada pela espiritualidade superior.[

Kôma, o sono profundo

A palavra coma vem do grego kôma, que significa “sono profundo”.

Sabemos que, durante o sono, o espírito se desprende das amarras da carne. Portanto, é possível que o espírito se veja livre das eventuais deficiências físicas do corpo, mesmo aquelas de ordem psicológica ou intelectual – nos casos em que a deficiência só existe no corpo, isto é, não decorre de desajustes do corpo espiritual.

Assim, o sono físico pode permitir, por exemplo, que o cego enxergue, que o mudo fale, e que a pessoa em coma recupere a consciência, na forma de espírito, conseguindo realizar as diversas atividades possíveis ao espírito durante o sono – desde as mais nobres, como praticar a caridade e ouvir palestras, passando pelas corriqueiras, como encontrar com amigos e familiares (tanto encarnados quanto desencarnados), até as menos enriquecedoras, como praticar zombarias.

O fato de a pessoa estar em coma, ao contrário do que o nome sugere, não significa que ela esteja dormindo o tempo todo – tal como o sono é averiguado em nosso corpo, com suas fases etc. A literatura médica aponta que, nos casos de coma com melhor prognóstico, verifica-se que o paciente em coma também experiencia o sono.[10]

O que acontece com o espírito durante o coma

Finalmente, chegamos à questão – quando a pessoa está em coma e não está propriamente dormindo, o que acontece com seu espírito?

A resposta à Questão 407 do Livro dos Espíritos pode elucidar esse ponto:

407. É necessário o sono completo para a emancipação do Espírito?

Não; basta que os sentidos entrem em torpor para que o Espírito recobre a sua liberdade. Para se emancipar, ele se aproveita de todos os instantes de trégua que o corpo lhe concede. Desde que haja prostração das forças vitais, o Espírito se desprende, tornando-se tanto mais livre, quanto mais fraco for o corpo.

Assim, é possível entender como algumas pessoas que sofreram desordens da consciência, uma vez despertas, recordam-se das pessoas que a visitaram e de coisas que lhe foram ditas – o espírito, desprendido, recupera as faculdades que faltam ao corpo prostrado e, tal como acontece no sono, é capaz de apreender o seu entorno, de forma consciente.

Aplica-se, aqui, a mesma lógica manifestada na resposta à Questão 422 do Livro dos Espíritos que, embora não trate propriamente do coma, trata de situação próxima o suficiente para a analogia ser feita:

422. Os letárgicos e os catalépticos, em geral, veem e ouvem o que em derredor se diz e faz, sem que possam exprimir que estão vendo e ouvindo. É pelos olhos e pelos ouvidos que têm essas percepções?

Não; pelo Espírito. O Espírito tem consciência de si, mas não pode comunicar -se.

a) — Por quê?

Porque a isso se opõe o estado do corpo. E esse estado especial dos órgãos vos prova que no homem há alguma coisa mais do que o corpo, pois que, então, o corpo já não funciona e, no entanto, o Espírito se mostra ativo.

Por outro lado, há casos em que a pessoa esteve em coma e não se recorda de nada desse período, ou mesmo esquece pessoas e fatos da vida anterior ao coma. Sob o aspecto médico, o esquecimento é normal, pode fazer parte do processo de recuperação do paciente e, sob o aspecto espiritual, o esquecimento não significa que o espírito tenha se mantido inerte durante o coma – a mesma lógica se aplica durante o sono, pois estamos em atividade mesmo quando não nos lembramos dos nossos sonhos.

Lições trazidas pela doença incapacitante

No romance espírita Vinte Dias em Coma, o leitor acompanha a história de Nestor, um ganancioso homem de negócios, de trato rude com todos os que o cercam, nem mesmo pelos filhos consegue demonstrar carinho. Está casado há 26 anos com Berenice, que, cansada de sua grosseria e prepotência, pensa em se divorciar. O coma de 20 dias traz relevantes transformações na vida de Nestor e dos que o cercam.

Para evitar “spoilers”, ficamos com a reflexão final da obra, mostrando que o coma pode cumprir um papel fundamental de aprendizado:

Seria de bom proveito, vez ou outra, provocarmos um ‘coma’ em nós mesmos, sem a necessidade de acidentes ou hospitais, mas um ‘coma’ imaginário, onde pudéssemos realizar, nesse exercício mental, uma análise do que nossos familiares, nossos amigos, nossos conhecidos, poderiam dizer a nosso respeito, se oportunidade tivessem, e nós, a de ouvi-los, sem que soubessem. Dessa forma, poderíamos analisar a nossa vida, os nossos atos, os nossos impulsos e as nossas reações, no intuito de exercitarmos melhor os ensinamentos do mestre Jesus que, inevitavelmente, nos proporcionaria a tão desejada felicidade e uma consciência mais tranquila, com a qual, e com o nosso amor, faríamos o nosso próximo mais feliz e seríamos muito mais amados por todos os que nos cercam.

Dilemas dos familiares e profissionais da saúde responsáveis pelo paciente sem perspectiva de melhora

Frequentemente, a família do paciente em coma se vê numa situação angustiante, especialmente nos casos em que o coma tem prognósticos mais pessimistas. É possível que o próprio paciente tenha indicado os cuidados paliativos ou procedimentos que gostaria ou não de receber quando, porventura, não estivesse consciente – caso do coma. Isso nem sempre torna mais brando o fardo dos familiares.

A comunidade médica traça importantes distinções no que tange aos cuidados do paciente terminal ou sem perspectiva de cura. A ortotanásia é admitida no Brasil e se encontra regulamentada da seguinte forma:

Na fase terminal de enfermidades graves e incuráveis é permitido ao médico limitar ou suspender procedimentos e tratamentos que prolonguem a vida do doente, garantindo-lhe os cuidados necessários para aliviar os sintomas que levam ao sofrimento, na perspectiva de uma assistência integral, respeitada a vontade do paciente ou de seu representante legal.

Em artigo publicado pela Associação Médico Espírita do Brasil, há uma importante reflexão sobre o tema:

O kardecismo tem por bem considerar a importância da continuidade do investimento na vida em detrimento da retirada voluntária desta, sendo assim contra a eutanásia. As pesquisas que trouxemos neste artigo são convergentes aos princípios kardecistas e certamente contribuem com a ampliação do conceito de ortotanásia.

Enquanto os métodos que evidenciam a vida e a comunicação espiritual se desenvolvem, as neurociências abrem uma nova possibilidade investigatória sobre a preservação da consciência nos indivíduos em estado vegetativo, em coma ou ECM [estado de consciência mínima]. Espera-se que o acesso aos exames de neuroimagem seja cada vez maior e pesquisas sobre o tema sejam conduzidas no Brasil.

As palavras de Chico Xavier e Emmanuel sobre o espírito da pessoa em coma

Por fim, é sempre bom buscarmos instrução e alento nas palavras de Chico e Emmanuel, que falaram sobre os espíritos dos pacientes em coma:

Pergunta: O que se passa com os espíritos encarnados cujos corpos ficam meses, e até mesmo anos, em estado vegetativo (coma)?

Resposta: Seu estado será de acordo com sua situação mental. Há casos em que o espírito permanece como aprisionado ao corpo, dele não se afastando até que permita receber auxílio dos Benfeitores espirituais. São Pessoas, em geral, muito apegadas à vida material e que não se conformam com a situação. Em outros casos, os espíritos, apesar de manterem uma ligação com o corpo físico, por intermédio do perispírito, dispõem de uma relativa liberdade. Em muitas ocasiões, pessoas saídas do coma descrevem as paisagens e os contatos com seres que os precederam na passagem para a Vida Espiritual. É comum que após essas experiências elas passem a ver a vida com novos olhos, reavaliando seus valores íntimos. Em qualquer das circunstâncias, o Plano Espiritual sempre estende seus esforços na tentativa de auxílio. Daí a importância da prece, do equilíbrio, da palavra amiga e fraterna, da transmissão de paz, das conversações edificantes para que haja maiores condições ao trabalho do Bem que se direciona, nessas horas, tanto ao enfermo como aos encarnados (familiares e médicos)

Fonte: Letra Espírita

leave a reply

WhatsApp chat