Fé e razão – É possível conciliar?

Por: Jackelline Furuuti

Os fanáticos da incredulidade fazem num sentido o que os fanáticos da fé cega fazem em outro. Enquanto estes dizem:

Para ser segundo Deus é preciso crer em tudo o que cremos; fora da nossa fé não há salvação, os outros dizem: Para ser segundo a razão, é preciso pensar como nós e não acreditar senão em tudo o que nós acreditamos; fora dos limites que traçamos à crença não há liberdade nem bom-senso, doutrina que se formula por este paradoxo: Vosso espírito só é livre com a condição de não crer no que ele quer, o que significa dizer para o indivíduo: Tu és o mais livre de todos os homens, com a condição de não ir mais longe do que a ponta da corda a que te amarramos. (REVISTA ESPÍRITA, 1867, p. 64-65).

Atravessamos um momento que nos exige grandes reflexões. Não importa qual seja o nosso ponto de vista, certo é que em algum momento, na companhia da solidão, paramos para pensar no ponto oposto de nossa visão, ainda que em tom de julgamento.

O Espiritismo traz como pilares principais a Religião, a Ciência e a Filosofia. Existe uma razão para isso. Quando as três estão em harmonia podemos entender como palpável a nossa aproximação com a Verdade Divina.

A Religião nos liga à esta força de origem primária nos dando resignação por meio da fé, até que venha a ciência e nos explique com seus experimentos, seus questionamentos e suas conclusões e, que a filosofia nos faça pensar, sentir e nos conscientizar.

São fontes de inesgotáveis respostas aos nossos anseios.

Por vezes, nossa inflexibilidade num desses pontos em relação a outro, ou o excesso de um e a falta de outro, nos leva a cometer certos erros.

Mas o Espíritos nos consola sempre nos trazendo mensagens de compaixão.

654. Tem Deus preferência pelos que O adoram desta ou daquela maneira?

“Deus prefere os que O adoram do fundo do coração, com sinceridade, fazendo o bem e evitando o mal, aos que julgam honrá-Lo com cerimônias que os não tornam melhores para com os seus semelhantes.”

“Todos os homens são irmãos e filhos de Deus. Ele atrai a Si todos os que lhe obedecem às leis, qualquer que seja a forma sob que as exprimam.”

“É hipócrita aquele cuja piedade se cifra nos atos exteriores. Mau exemplo dá todo aquele cuja adoração é afetada e contradiz o seu procedimento.”

“Declaro-vos que somente nos lábios e não na alma tem religião aquele que professa adorar o Cristo, mas que é orgulhoso, invejoso e cioso, duro e implacável para com outrem, ou ambicioso dos bens deste mundo. Deus, que tudo vê, dirá: o que conhece a verdade é cem vezes mais culpado do mal que faz, do que o selvagem ignorante que vive no deserto. E como tal será tratado no dia da justiça. Se um cego, ao passar, vos derruba, perdoá-lo-eis; se for um homem que enxerga perfeitamente bem, queixar-vos-eis e com razão.”

“Não pergunteis, pois, se alguma forma de adoração há que mais convenha, porque equivaleria a perguntardes se mais agrada a Deus ser adorado num idioma do que noutro. Ainda uma vez vos digo: até Ele não chegam os cânticos, senão quando passam pela porta do coração. (KARDEC, 2012, p 391-392).”

Somente Deus tem conhecimento das nossas intenções. Ainda que nossos atos nos levem à queda, Deus conhece a causa, a intenção e, portanto, o efeito. Como bom mestre, sempre nos orienta. Criador de todas as coisas, nos deu a ciência para explicar aos céticos a verdadeira complexidade que é a existência e, consequentemente, trazer ainda mais certeza aos crentes. Os milagres não deixam de ser milagres, as curas não deixam de ser fantásticas, pelo contrário, elas se tornam possíveis a todos, como sempre nos ensina Jesus ao mencionar que quanto maior for a nossa fé, maiores serão nossos feitos.

Estamos em um momento onde um vírus ainda praticamente desconhecido para a ciência, nos convida internalizar todos os ensinamentos que acumulamos ao longo da vida, nos questionando sobre o quanto absorvemos de tudo o que semeamos, além de demonstrar de forma clara o quanto somos pequenos diante das provas impostas e, principalmente, das consequências com as quais temos que lidar. Somos responsáveis pelo ‘destino’ que nos alcança.

O contexto atual nos convida à sermos mais gratos, a sermos mais crentes, tendo sempre o cuidado de não nos deixarmos levar pela cegueira do fanatismo. Os acontecimentos que inimaginavelmente nos alcançaram pedem que agora conheçamos o tamanho da nossa fé. Ao mesmo tempo, os fatos nos colocam na, talvez, desconfortável posição de compreender que por mais que julguemos ser sábios, o que vem de Deus é sempre muito maior. O momento nos clama que compreendamos e aceitemos a vontade de Deus, meras consequências dos nossos atos, sejam eles desta ou de outras vidas.

Tudo parece acontecer para nos separar, para criarmos polos times, partidos. E de repente, circulando por todos os pontos de vista existe uma doença que pede por harmonia e coloca à prova todas as nossas fraquezas e pontos íntimos a serem cuidados.

É tempo de nos conectarmos a esses pontos, acreditarmos nesta força suprema ao mesmo tempo em que acreditamos nas certezas que o plano material explica. As sutilezas do espiritual serve para que reflitamos sobre nossas filosofias de vida.

Em um mundo que atravessa a fase de transição, não há como não haver pessoas em fases de diferentes aprendizados, mas este não é vertical e sim cíclico, como em uma classe onde são ensinadas várias matérias e um tem mais dificuldade ou facilidade para esta ou aquela matéria. Não há razões maiores, há posicionamentos, fatos, opiniões e decisões que fluem de acordo com a fase em que cada indivíduo atravessa. Apenas Deus sabe quem verdadeiramente está agindo de acordo com o que já aprendeu e a mais ninguém cabe o direito/dever de julgar. Aquele que hoje peca pelo ceticismo, outrora há de aprender sobre a fé e vice-versa, ou seja, aquele que peca pelo fanatismo, há de um dia aprender sobre a importância do raciocínio.

Quando uma certeza muito grande tomar conta dos seus pensamentos, busque compreender porque certezas opostas as suas também são tão aceitas e defendidas por outras pessoas. Use o tempo para refletir se em cada uma delas não habita aquele gancho importante para ligar um pensamento ao outro, ou ao menos a mesma intenção que a sua.

Conforte-se na certeza de estar fazendo o que seu coração entende ser o melhor para você e para o próximo, lembrando-se de não julgar o outro. A verdade absoluta é uma casa que recebe todas possibilidades, e Deus é o dono, o anfitrião que define quem será morador ou mero visitante. Nesta casa sempre teremos livre oferta dos melhores alimentos para o nosso espírito, corpo e mente, basta crer, compreender, refletir e amar aquele que ainda estiver aprendendo o que você já sabe. Espelhe-se em Deus, que sabe todas as coisas e, por isso, é tão misericordioso diante das nossas ignorâncias.

REFERÊNCIAS

REVISTA ESPÍRITA. Jornal de Estudos Psicológicos. Direção de Allan Kardec. Ano décimo – 1867. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. FEB. Disponível em: https://www.febnet.org.br/ba/file/Downlivros/revistaespirita/Revista1867.pdf. Acesso em: 15 de julho de 2020.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 2012. FEB. Disponível em: https://www.febnet.org.br/wp-content/uploads/2012/07/135.pdf. Acesso em: 15 de julho de 2020.

 

Fonte: Letra Espírita

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