Materialismo, espiritualismo e espiritismo – Isadino dos Santos

Todo ser humano, desde a sua origem, sempre teve a curiosidade, e até mesmo  sentiu a necessidade de saber quem ele é, de onde veio e para onde vai, enfim,  conhecer a si mesmo, a sua própria essência. Porém, a escassez de esclarecimentos a esse respeito fez com que cada um procurasse tirar suas próprias conclusões, ficando a humanidade, desde épocas remotas, dividida em três espécies de crenças:

Primeiro porque alguns, refutando o conceito de espírito, buscaram explicar a existência do ser humano, como se fosse a verdade absoluta, a partir da matéria, onde a filosofia de vida é caracterizada pelo apego aos bens materiais, achando que o homem seria apenas um corpo material, uma espécie de máquina que é descartada quando perde a sua funcionabilidade, e que, com a morte tudo se acabaria para ele, teoria essa que conhecemos como “materialismo puro”. No entanto, essa tese veio a ser contestada pela própria ciência humana, depois que o renomado cientista francês Antoine Laurent de Lavoisier, após vários anos de estudos, e inúmeras pesquisas científicas, descobriu e formulou a regra de que  na natureza nada se cria e nada se perde, tudo se transforma, e, em assim sendo, o corpo físico, como toda matéria, não poderia ser uma exceção, ou seja, não se acabaria, apenas se transformaria. 

Em segundo, porque, outros, achando-se um pouco mais esclarecidos, acreditavam ser o homem um animal como os demais, estando portanto, sujeito às leis regentes da animalidade, porém, desde que devidamente comprovado, e dentro da lógica, além do corpo físico, nele poderia existir alguma coisa que o fazia pensar e agir por sua própria vontade, podendo haver, portanto, a probabilidade de, existir também algo que o acompanhava durante toda a sua existência terrena que foi chamado de espírito. Entretanto, como foram criados juntos, com a morte do corpo, esse também pereceria, crença essa que ficou conhecida como “materialismo indiferente”. No entanto esse tipo de crença também já havia sido parcialmente descartado muito antes da era cristã pelo filósofo grego Sócrates, que, para fundamentar o império da justiça divina, afirmava que o homem é uma alma  encarnada, e que antes de sua encarnação já existia como espírito junto aos modelos primordiais, portanto, sendo imortal viveria para sempre. 

Em terceiro, aqueles que acreditavam na existência de um espírito que acompanhava o corpo durante toda a sua vida e que, mesmo depois da transformação da matéria, continuaria sua caminhada em busca do futuro, cuja teoria é conhecida até os dias atuais como “Espiritualismo”.

No ano 3.500 antes da era cristã por exemplo, no Egito foi escrito “O Livro dos Mortos”, que continha um texto para orientar o morto  como prevenir e fugir do assédio dos maus espíritos no mundo espiritual, cuja cópia era colocada entre as pernas do falecido antes de ser sepultado. Os egípcios, quando queriam falar com seus mortos escreviam uma carta num prato de cerâmica e depois depositavam no interior do sarcófago, cuja resposta viria não em outra carta, mas, em sonho. No museu de Paris há um exemplar bem conservado dessa carta.

Para o islamismo, a morte do corpo seria a passagem do espírito para a vida eterna; para o catolicismo a volta do espírito àquele corpo só deverá ocorrer no dia do Juízo Final (ressureição da carne); para o judaísmo, o espírito poderá retornar quando for necessário para a humanidade;  para o hinduísmo, de acordo com o livro dos Vedas, o retorno do espírito ocorre logo após a morte do corpo; para o budismo o retorno ocorre enquanto o espírito permanecer preso ao seu carma.

Das quatro seitas existentes ao nascimento de Jesus, apenas uma era materialista indiferente, os saduceus, pois, embora admitissem a possibilidade da existência da alma, negavam sua imortalidade; já os fariseus acreditavam que os espíritos virtuosos voltariam a animar novos corpos, enquanto os malfeitores seriam condenados ao castigo eterno; os zelotes, assim como os essênios ensinavam que aqueles que revelassem faculdades psíquicas (mediunidade), eram preparados para o exercício de intercâmbio com o mundo espiritual, ensinando, também, que o corpo físico era matéria perecível, portanto, transformável, e que a alma se unia a ele por meio de um tipo de substância fluídica oriunda do Universo (perispírito).

Vê-se, pois, que a crença na existência e imortalidade do espírito é muito antiga, e, não obstante as divergências de opiniões a respeito do seu retorno ao mundo material, sempre foi respeitada pela maioria das religiões

Por isso, para acabar de uma vez por todas com a polêmica gerada, principalmente pela teoria do materialismo puro, assim como pelo indiferente, em 1857 surgiu, com todo o seu esplendor, o Espiritismo, por meio das obras codificadas pelo pedagogo francês Allan Kardec que, usando o método científico da experimentação, comprovou a existência do espírito como entidade imortal, criada por Deus e distinta do corpo físico. No entanto, como toda tese nova encontra não só adeptos como também contraditores, apesar de bem fundamentada, a Doutrina Espírita ainda se depara com opositores que, acossados pelo materialismo, ao invés de buscar respostas racionais para suas crenças, preferem permanecer escravizados pelo conceito equivocado do materialismo, mesmo sabendo que isso acarretará estagnação ou atraso na sua evolução espiritual.

Alguns deles, no intuito de negar a existência e imortalidade do espírito  apresentam inúmeras justificativas e, entre elas a negativa de que Jesus tenha morrido na cruz e depois ressurgido, alegando que, alguns dias após a crucificação, fora visto fazendo refeições com seus discípulos em Jerusalém e na Galileia, o que levou a crer que seu corpo, ainda vivo, fora retirado pelos essênios do local onde supostamente teria sido sepultado, para que, quando aparecesse o povo pensasse que havia ressuscitado. Entretanto, o Espiritismo explica, de maneira muito clara, que  nesse caso, realmente não houve ressurreição da carne, mas sim, o fenômeno de materialização, cuja densidade do corpo fluídico permitiu que Ele se manifestasse de forma tangível. 

Diante disso, nos dias atuais a existência e imortalidade do espírito, propagada pela Doutrina Espírita, não é mais ignorada por nenhum ser humano bem informado, e a sua realidade vem sendo aceita pela grande maioria da humanidade, por isso acreditamos que num futuro bem próximo o Espiritismo será reconhecido por todos, não somente como esclarecimentos sobre as leis naturais, mas, também e principalmente como um código normativo do relacionamento social, e da aplicação dos princípios morais ensinados por Jesus, mostrando ao homem a necessidade de sua reforma intima. Portanto, para ser espírita convicto, não basta apenas crer e aceitar a existência do espírito como fazem os seguidores das demais seitas, é preciso simpatizar com o Evangelho e, acima de tudo, seguir fielmente os ensinamentos cristãos nele contidos, mesmo porque, nem todo espiritualista é verdadeiramente espírita, mas, todo espírita é espiritualista.

Isadino dos Santos

deixe um comentário

WhatsApp chat