Menino – Antonio Carlos Tarquínio

Quando eu era criança meus pais frequentavam a Federação Espírita do Estado de São Paulo no tempo em que lá havia um casarão e não como agora um prédio.

Muitas vezes fui com eles.

Em algumas ocasiões ficava do lado de fora da sala – o salão Caibar Schutel – se não me engano. O tal salão possuía dois acessos principais. Um pela frente, outro pela lateral esquerda.

Ali no começo do corredor perto da escada havia um busto de Kardec. Coitado! A necessidade do povo era tamanha que gastaram o bronze da estátua de tanto lhe passarem as mãos, atrás da cabeça e de bênçãos…

Eu ficava sentadinho num banco atrás da porta fechada, e o sono pesava de tal maneira que de vez em quando dava-lhe com a cabeça, e bum! Acordava.

Com o desenovelar do fio do tempo passei a ter acesso às palestras. Na maior parte das vezes ficava maravilhado com os palestrantes, como falavam bem, assistia a tudo de coração enlevado e espírito embevecido.

Ah! Também havia os hinos que todos entoavam em uníssono nas reuniões antes das palestras: “Alan Kardec bom mestre…” tudo era muito envolvente e belo, e as canções extasiavam minha alma de menino…

Não obstante, um dia aconteceu algo diferente. O palestrante não era nem um pouco simpático. Na verdade era até meio ranzinza.

Expressava-se, pausadamente, no passo do pensamento.

Quando abria a boca o verbo vertido brotava de profunda reflexão.

Não falava bonito.

Não descrevia quadros mirabolantes.

Não discursava com o intuito de pegar os ouvintes pela emoção.

A sua retórica não-retórica era impressionante por sua lucidez lancinante, por seu poder de despertar consciências, por sua força em reavivar os mortos-vivos adormecidos em palavras melífluas.

Eu ali sentado, ainda um menino, senti-me profundamente impactado por aquela palavra nua despida de quaisquer adereços, alimpada de todo artifício.

A única beleza que aquele verbo percuciente possuía era a beleza da verdade.

Diante dele nunca mais fui o mesmo.


Antonio Carlos Tarquínio

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