Respeito – Antônio Carlos Tarquínio

O livre-arbítrio (toi emoi proairetikoi) de meu próximo é tão indiferente ao meu livre-arbítrio quanto o seu sopro (tò pneumátion) e sua carne. Com efeito, embora, tenhamos sido criados tanto quanto possível uns para os outros, cada um de nossos hegemônicos é senhor de si. (1)
Ladrão de livre-arbítrio não existe. (2)
Isto é, a escolha constrange a escolha. (3)

No capítulo sensível e delicado de nossas relações com os entes próximos e queridos tomemos cuidado, mas muito cuidado mesmo para não interferir em suas escolhas, dado ser imprescindível respeitá-los, isentando-nos de exercer a vontade de poder sobre os caminhos alheios e com isso impedindo os nossos amados de viver a própria vida.

É extremamente difícil deixá-los em paz com suas decisões, porquanto os representamos, no campo íntimo, através de juízo equivocado qual devessem se submeter aos nossos pontos de vistas, tão limitados, como faltos de compreensão e entendimento.

Se insistirmos nesse mau procedimento, algemando a vida que lhes pertence à nossa, acabaremos por roubar-lhes o direito inalienável de buscarem a própria felicidade.

Necessitamos perceber que com a execução de semelhante plano de ação quedaremos na insatisfação e na angústia por inviabilizar a vida alheia e o que é pior com a triste justificativa de amá-las.

A importância de conseguir adquirir uma postura, um posicionamento adequado nessas situações em que por “amor” obstruímos obstaculizando por completo os percursos, os itinerários de nossos “amados”, está no entendimento de que para cada um de nós a vida se revela em sentido diferente, cabendo a esta ou aquela criatura desvelá-lo – e para isso é preciso que aqueles que nos confessem “amor e ternura” nos permitam, acima de tudo – viver.

Tarquínio


  1. Marco Aurélio, Meditações, VIII, 56
  2. Marco Aurélio, Meditações, XI. 36
  3. Epicteto, Diatribes, I, 17,26

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